A estudante pernambucana Adriane Mirelly da Silva, de 13 anos, tornou-se a primeira brasileira a vencer o Concurso Internacional de Redação sobre a Paz, promovido pelo Lions Clubs International. Aluna da rede municipal de ensino de Palmares, na Mata Sul de Pernambuco, ela foi selecionada entre participantes de diversos países.
Adriane, que possui deficiência visual, abordou em sua redação temas como empatia, respeito às diferenças e a construção da paz nas relações humanas. “Aprendi que não se enxerga com os olhos. A gente também enxerga com o coração. A paz começa quando respeitamos as diferenças e olhamos para o outro com amor”, afirmou.
O anúncio da conquista foi feito no dia 19 de março de 2026, durante sessão solene do Lions Day, na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, com repercussão internacional.
Como premiação, Adriane receberá US$ 5 mil e participará, com despesas custeadas, da Convenção Internacional do Lions, que será realizada em julho, em Hong Kong, onde será homenageada.
Para o Lions Clube de Palmares, o resultado representa um marco para o município e para o país. Segundo o representante Tiago Lima, a conquista evidencia a força da educação pública e o trabalho desenvolvido na formação de valores ligados à cultura de paz.
A vitória também foi destacada por autoridades municipais. O prefeito Junior de Beto ressaltou a educação como ferramenta de transformação social. Já a secretária de Educação, Elizângela Neves, apontou o esforço da rede de ensino e o protagonismo da estudante.
A conquista de Adriane projeta Pernambuco no cenário internacional e reforça o papel da educação na promoção de inclusão e cidadania.
Veja a íntegra da carta vencedora:
Juntos Somos Um: A Verdade Sem Aparências
A maioria das pessoas aprende sobre o mundo através da luz e da cor. Elas veem as fronteiras, as diferenças na tonalidade da pele, as linhas que separam o “eu” do “outro”. Eu também vejo a luz, mas elame chega de forma suave, sem a nitidez que cria filtros e categorias. Nasci com baixa visão, e isso me ensinou que a paz não começa na vista, mas na cegueira voluntária do julgamento.
O tema “Juntos Somos Um” exige que a gente olhe para dentro. A desarmonia do mundo, as guerras e a exclusão não são acidentes. São o resultado de um erro de cálculo visual. A sociedade é ensinada a valorizar o que é grande, alto, bonito ou igual ao que está no espelho. E tudo o que não se encaixa nessa imagem é, muitas vezes, rejeitado, temido ou silenciado.
Para mim, as pessoas são reveladas por algo mais íntimo. Elas são a vibração do seu passo na calçada, a mudança na respiração antes de uma pergunta, a qualidade do silêncio que compartilham. A cor da pele pode ser um borrão, mas a cor da alma – revelada pela forma como tratam quem é vulnerável ou pela maneira como usam suas palavras – é perfeitamente clara. A minha experiência mostra que a única coisa que realmente separa as pessoas é a distância entre a mente e o coração.
Neste universo, somos todos feitos do mesmo material cósmico. O átomo que compõe a minha mão é o mesmo que forma a montanha e o mesmo que reside no coração de alguém que vive do outro lado do planeta. Somos a mesma composição, mas nos vestimos com embalagens diferentes. Quando nos apegamos à embalagem – ao que é visível e superficial – quebramos a unidade.
Ser “um” não significa que temos que concordar com tudo ou que precisamos apagar nossas identidades. Pelo contrário. A verdadeira unidade é um ato de aceitação radical. Significa que eu valorizo a sua diferença porque ela completa a minha visão imperfeita do mundo. Significa que a sua alegria é, de alguma forma, a minha alegria, e que a sua dor é uma rachadura na fundação da minha própria segurança.
Se pudéssemos, por um instante, fechar os olhos de forma coletiva, não veríamos quem tem mais ou menos, quem é forte ou fraco, quem é daqui ou de lá. Sentiríamos apenas a urgência compartilhada de viver, de amar e de proteger a nossa única casa. Sentiríamos o fio invisível que não precisa de luz para ser percebido.
A paz não é um destino distante, mas a revelação da nossa unidade. É o momento em que a humanidade finalmente reconhece a verdade sem as aparências: somos mais do que a soma das nossas partes visíveis. Somos um único corpo pulsando juntos no escuro, ansiosos pela luz, mas já conectados pela nossa essência mais profunda. E essa é a verdade que eu aprendi a ver, sem a necessidade dos meus olhos.”



