Secretária teria forjado o próprio atentado no Cabo de Santo Agostinho

Da Folha de Pernambuco

A Polícia Civil de Pernambuco concluiu que foi forjado o ataque contra a secretária da Mulher da Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, ocorrido em março deste ano. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (18).

A caminhonete em que Aline Melo estava como passageira foi alvo de tiros na noite de 27 de março, na rodovia estadual PE-28. Na ocasião, o veículo ficou com marcas de dois disparos. A gestora e seu motorista não ficaram feridos, e Aline, à época, disse que o caso poderia ter sido motivado por violência de gênero.

Segundo a delegada Myrthor Andrade, titular da 14ª Delegacia de Polícia de Homicídios (14ª DPH), o atirador, que estava em uma motocicleta no momento dos disparos, é o pai do motorista da secretária. Imagens mostram o momento em que o atirador e as supostas vítimas se encontraram momentos antes dos tiros.

As investigações iniciaram após a secretária e o motorista registrarem um boletim de ocorrência para relatar a tentativa de homicídio sofrida na PE-28.

“Eles contaram que saíram do local de trabalho e o destino final seria Gaibu. Antes de pegar a PE-28, passaram por uma obra, mas não desceram do carro. Eles disseram que não mantiveram contato com ninguém, foram direto para a estrada sentido Gaibu”, informou a delegada.

Em depoimento, o motorista relatou, ainda, que percebeu uma moto com faróis de LED tentando ultrapassar pelo acostamento.

“Ele disse que ignorou, achando que seria um ‘doido’ na estrada. E mais na frente escutou o primeiro disparo, quando alertou a passageira [secretária] para que ela se abaixasse, e escutaram um segundo disparo de arma de fogo”, informou a delegada.

Diante do ocorrido, a equipe de investigação tentou buscar imagens de câmeras de segurança do trecho que pudessem ter flagrado a ação e a placa da moto usada no crime. Uma das câmeras flagrou o momento em que uma moto com as mesmas características da usada pelo suspeito está parada no início da PE-28.

“Logo em seguida, o veículo onde estavam essas duas vítimas também parou e eles conversaram, interagiram durante 17 segundos. Nesse meio tempo, chegou a notícia para a equipe de investigação da delegacia que o pai do motorista teria uma moto com características parecidas”, relatou a delegada.

O pai foi levado à unidade policial para prestar depoimento e, inicialmente, informou não ter feito o percurso do crime, e que só teria saído até a delegacia após saber da tentativa de homicídio contra o filho.

“Diante desse primeiro depoimento e das imagens que a gente captou desse prévio encontro, os três foram convidados novamente à delegacia, intimados para prestar esclarecimento. O motorista, quando a gente apresentou as imagens, permaneceu em silêncio”, afirmou a delegada.

Já a secretária informou ter lembrado da parada, mas, questionada sobre o que teria sido essa conversa de 17 segundos, ela afirmou que não prestou atenção. 

“A passageira disse: ‘Ah, realmente, o carro teve uma parada lá e eu percebi quando o motorista pegou ou recebeu alguma entrega’, e questionada se ela reconheceria quem era essa pessoa da moto que estava pilotando, ela disse que não”, detalhou a delegada.

O homem assumiu que era ele que estava na moto e que realmente tinha feito um prévio encontro com o filho, mas sob a justificativa de que fariam uma entrega de canetas emagrecedoras e que essa entrega seria feita em Gaibu. Relatou, ainda, que não teria mencionado antes com medo da comercialização ilícita.

As imagens mostraram que o motociclista retornou pela via em curto espaço de tempo, divergindo do relato de entrega de medicamento em Gaibu. O homem teria dito que voltou após o filho pedir para ele buscar uma maquineta de cartão de crédito.

“O pai afirmou que não viu a ação e justificou o retorno dele com essa desculpa de dizer que tinha que pegar essa maquineta do cartão de crédito”, relatou a delegada.

Ao ser questionada se os envolvidos teriam forjado a ação, a delegada destacou que “a conclusão foi nesse sentido”, e que não ficou claro para a polícia o motivo e intenção. Ressaltou, também, que a secretária correu risco, apesar da farsa.

“Não foi uma pedrada, foi um disparo de uma pessoa que estava sozinha numa moto, pilotando no escuro. A pessoa que efetuou os disparos assumiu esse risco, quem estava dentro também. É muito subjetivo, a gente não pode avaliar do porquê de uma pessoa assumir isso. Mesmo a vítima tendo consciência, o motociclista vai responder pela tentativa”, detalhou a delegada.

Os envolvidos foram responsabilizados de acordo com a conduta no crime. A mulher e o motorista vão ser responsabilizados por fraude processual, falsa comunicação de crime e denunciação caluniosa. Já o motorista, piloto da moto, que efetuou dois disparos, foi denunciado por fraude processual e tentativa de homicídio.

A arma usada no crime não foi encontrada. “O procedimento, o inquérito, já foi concluído, já foi remetido ao Ministério Público. Agora fica a cargo da promotoria de indiciar e analisar a conduta, a tipificação e seguir para a Justiça”, afirmou Myrthor Andrade.

Secretária afastada
Por meio de nota, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho informou que tomou conhecimento das informações divulgadas pela Polícia Civil de Pernambuco sobre o caso e que, diante dos fatos apresentados e enquanto as investigações seguem em andamento, a gestão determinou o afastamento da secretária e do motorista citado no caso.


“A Prefeitura reforça que acompanhará o andamento das investigações e, caso haja confirmação de conduta irregular e responsabilização dos envolvidos, adotará todas as medidas administrativas cabíveis. A gestão municipal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o respeito à população”, ressalta o comunicado.

Confira íntegra da nota:
“A Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho tomou conhecimento, nesta segunda-feira, das informações divulgadas pela Polícia Civil de Pernambuco, sobre o caso envolvendo a então secretária da Mulher, Aline Melo.

Diante dos fatos apresentados e enquanto as investigações seguem em andamento pelas autoridades competentes, a gestão determinou o afastamento da então secretária e do motorista citado no caso.

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