Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades

Da Agência EBC

Em meio às grandes redes de supermercados em São Luís, no Maranhão, surgem mercadinhos e feiras populares adaptados à realidade de quem tem poucos recursos. O contraste entre os tipos de estabelecimentos e os modos de consumo revelam dinâmicas de exclusão e de desigualdade na cidade.

O cenário foi objeto de estudo de Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Ela recorreu a uma teoria formulada na década de 1970 por Milton Santos.

A teoria de Milton divide a economia urbana em dois circuitos: superior, concentrado nas grandes empresas, com alto nível de tecnologia, capital e organização; e inferior, formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população.

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, diz Livia.

“Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”, exemplifica.

A atualidade da teoria também aparece em pesquisas fora do Brasil. O projeto de pesquisa do qual Lívia faz parte aplica as ideias de Milton às dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em Londres e Paris, na Europa.

Biografia

Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.

Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produção intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Negro, enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade. Ele se tornou inspiração e referência para outros intelectuais negros, como a também geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, diz Catia.

A teoria de Milton divide a economia urbana em dois circuitos: superior, concentrado nas grandes empresas, com alto nível de tecnologia, capital e organização; e inferior, formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população.

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, diz Livia.

“Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”, exemplifica.

A atualidade da teoria também aparece em pesquisas fora do Brasil. O projeto de pesquisa do qual Lívia faz parte aplica as ideias de Milton às dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em Londres e Paris, na Europa.

Biografia

Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.

Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produção intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Negro, enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade. Ele se tornou inspiração e referência para outros intelectuais negros, como a também geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, diz Catia.

A professora explica que a obra de Milton não trouxe como tema central a negritude, nem a dimensão política da relação entre classe social e raça. Porém, ele produziu uma teoria social crítica das desigualdades que ajuda a analisar as questões raciais. E nunca ignorou o tema quando era necessário se posicionar na vida pública.

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”

“Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra crítica”, disse Santos no programa Roda Viva, em 1997. 

Teorias das desigualdades

Além da teoria dos circuitos urbanos, o geógrafo trouxe ideias que aprofundaram a compreensão sobre as desigualdades. Para Milton Santos, o espaço nunca foi apenas o cenário onde a vida acontece, mas o resultado direto de decisões políticas e econômicas.

Isso significa que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades (como saneamento, transporte ou acesso à internet) não é acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios.

Ao olhar para uma periferia sem serviços básicos ou para uma área valorizada com alta concentração de investimentos, o geógrafo propõe enxergar ali não um acaso, mas a materialização de relações de poder.

“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”, explica a geógrafa Catia.

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