Por Pepeu Acioly
A primeira derrota da vida política de João Campos pode ser, paradoxalmente, uma das experiências mais importantes de sua trajetória.
Não pelo tamanho da derrota, mas pelo que ela pode ensinar.
João Campos construiu, desde muito cedo, uma carreira marcada por vitórias expressivas. Aos 24 anos, chegou à Câmara dos Deputados com uma votação histórica para Pernambuco. Em 2020, aos 26, foi eleito prefeito do Recife. Quatro anos depois, foi reeleito no primeiro turno com 78,11% dos votos válidos, somando 725.721 votos.
Em 2026, decidiu deixar temporariamente a Prefeitura para disputar o Governo de Pernambuco. Pela primeira vez, encontrou nas urnas um resultado diferente daquele ao qual estava acostumado.
Raquel Lyra foi reeleita governadora no primeiro turno. João ficou em segundo lugar.
É justamente aqui que começa a parte mais importante dessa história.
João não chega a este momento como um político qualquer. Ele carrega um dos sobrenomes mais conhecidos da política pernambucana. É bisneto de uma tradição política iniciada com Miguel Arraes, neto de uma família que ajudou a moldar o PSB em Pernambuco e filho de Eduardo Campos, que governou o estado por dois mandatos.
Sua avó, Ana Arraes, foi deputada federal e chegou à presidência do Tribunal de Contas da União.
A família Campos e Arraes atravessa gerações da política pernambucana. Miguel Arraes foi governador três vezes, em 1962, 1986 e 1994, e também exerceu mandatos de deputado federal. Em 1998, entretanto, conheceu uma derrota importante ao tentar a reeleição para o Governo de Pernambuco.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores lições que João pode tirar da própria história familiar.
Arraes perdeu.
Mas voltou.
A política, aliás, é feita de ciclos. Há momentos em que o eleitor abre portas e outros em que as fecha. Há vitórias que parecem definitivas e derrotas que, anos depois, tornam-se apenas capítulos de uma trajetória muito maior.
A história política brasileira está cheia de exemplos de lideranças que perderam uma eleição e retornaram às disputas seguintes por outros caminhos. A própria trajetória de Miguel Arraes demonstra isso: depois de ser deposto pelo regime militar e passar pelo exílio, voltou ao Brasil e posteriormente foi eleito novamente governador de Pernambuco em 1986 e 1994.
É por isso que a derrota de João Campos não precisa ser entendida como ponto final.
Pode ser ponto de inflexão.
A grande questão é saber o que ele fará a partir daqui.
João chega a esse momento com uma vantagem que muitos políticos jamais tiveram: uma carreira construída muito rapidamente, cargos de enorme visibilidade e uma estrutura política nacional que o colocou, inclusive, na presidência do PSB.
Mas justamente por ter vencido tantas vezes, a derrota pode oferecer algo que as vitórias não oferecem com a mesma intensidade: a oportunidade de ouvir quem não votou nele.
De rever estratégias.
De compreender erros.
De perceber que Pernambuco não é apenas Recife.
De entender que uma eleição estadual exige uma leitura muito mais ampla do estado, das suas regiões, das suas forças políticas e, sobretudo, dos sentimentos do eleitorado.
O desafio de João agora não é simplesmente voltar a vencer.
É aprender com o fato de que, desta vez, não venceu.
Porque existe uma diferença enorme entre perder uma eleição e ser derrotado politicamente. A primeira é circunstância. A segunda pode se tornar consequência quando não há capacidade de reflexão.
E é aí que entra o ego.
Todo político precisa conviver com ele. A política exige confiança, coragem, capacidade de decisão e disposição para enfrentar adversários. Mas o mesmo ego que pode ajudar alguém a chegar ao poder também pode dificultar a leitura dos próprios erros.
Se João transformar a derrota em aprendizado, ela poderá representar apenas uma curva em uma estrada que ainda pode ser longa.
Se, ao contrário, acreditar que a derrota foi apenas resultado de circunstâncias externas e não houver espaço para autocrítica, poderá desperdiçar uma das maiores oportunidades de amadurecimento político que recebeu até aqui.
A história da própria família mostra que derrotas não necessariamente encerram trajetórias.
Miguel Arraes foi deposto e voltou.
Eduardo Campos conheceu derrotas eleitorais antes de se consolidar como uma das principais lideranças políticas de Pernambuco.
Marília Arraes disputou a Prefeitura do Recife em 2020 e o Governo de Pernambuco em 2022 e, em 2026, conquistou uma cadeira no Senado Federal.
A política não é uma linha reta.
É feita de avanços, recuos, alianças, rupturas, escolhas e, inevitavelmente, derrotas.
João Campos acaba de conhecer a sua primeira.
E talvez seja justamente por isso que ela seja tão importante.
Durante anos, João aprendeu a vencer. Agora, terá a oportunidade de aprender a perder.
A derrota ensina.
Cabe a cada um decidir se quer aprender com ela.
Com João Campos não será diferente.
O futuro político do presidente nacional do PSB será construído não apenas pelas vitórias que já acumulou, mas pela maneira como escolherá reagir à primeira derrota.
Porque, na política, perder uma eleição pode ser apenas perder uma eleição.
O que vem depois é que pode definir o próximo capítulo.



