Caso Banco Master: suposta pressão de Alexandre de Moraes sobre Banco Central gera crise institucional

Polêmica envolvendo ministro do STF, presidente do BC e instituição financeira culmina em liquidação e investigações da PF

Uma das maiores controvérsias institucionais dos últimos meses envolve o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo e o Banco Master. O caso ganhou as manchetes após relatos de que Moraes teria pressionado Galípolo para atuar a favor da instituição financeira em meio a um negócio bilionário.

A origem da polêmica

Empresários e banqueiros da região da Faria Lima, em São Paulo, receberam informações de autoridades e políticos de Brasília sobre supostos contatos entre o ministro Alexandre de Moraes e Gabriel Galípolo. Segundo a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, Moraes teria procurado o presidente do Banco Central em quatro ocasiões para tratar de questões relacionadas ao Banco Master.

Os relatos ampliaram os questionamentos sobre os limites da atuação do magistrado e trouxeram à tona preocupações sobre a autonomia do Banco Central, conquistada formalmente em 2021 justamente para blindar a autoridade monetária de interferências políticas ou de outros poderes.

O desfecho dramático

O caso, que inicialmente parecia restrito a questões técnicas e regulatórias do Banco Central, tornou-se uma das maiores crises institucionais e políticas do país. Em 18 de novembro de 2025, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, junto com outros seis executivos, enquanto o Banco Central decretou simultaneamente a liquidação extrajudicial da instituição.

Operação Compliance Zero revela fraudes bilionárias

A prisão de Vorcaro ocorreu no contexto da Operação Compliance Zero, que investiga a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras. Técnicos do Banco Central identificaram irregularidades graves envolvendo a transferência de aproximadamente R$ 12,2 bilhões em créditos do Banco Master para o Banco de Brasília, com indicações de que os títulos eram inexistentes ou desprovidos de lastro real.

Daniel Vorcaro foi detido no Aeroporto de Guarulhos quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Segundo sua defesa, a viagem seria para encontro com investidores, mas autoridades avaliaram que havia risco de fuga do país.

O contrato polêmico de R$ 129 milhões

A investigação revelou um elemento que agravou ainda mais a controvérsia. O escritório Barci de Moraes Associados, comandado pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, mantinha um contrato com o Banco Master que previa pagamento mensal de R$ 3,6 milhões por três anos, a partir de janeiro de 2024, totalizando cerca de R$ 130 milhões.

O documento indicava que o escritório representaria os interesses do banco e de Vorcaro junto ao Banco Central, à Receita Federal, ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e ao Congresso Nacional.

Curiosamente, informações obtidas via Lei de Acesso à Informação pelo Cade e pelo BC revelaram que nenhuma dessas instituições recebeu pedidos de reuniões, petições ou documentos do escritório.

Os contatos de Moraes com Galípolo

Segundo a apuração da jornalista Malu Gaspar, publicada no jornal O Globo, Alexandre de Moraes manteve ao menos quatro contatos com Gabriel Galípolo — três por telefone e um encontro presencial. Seis fontes relataram os episódios ao longo de três semanas, incluindo uma que teria ouvido do próprio ministro sobre a reunião.

Em julho de 2025, Moraes teria solicitado um encontro presencial com Galípolo e, segundo relatos, disse que gostava de Vorcaro e defendeu que o Banco Master estaria sendo combatido por estar tomando espaço dos grandes bancos. O ministro teria pedido que o Banco Central aprovasse a operação de venda ao BRB.

Galípolo teria informado que técnicos do Banco Central haviam identificado fraudes no repasse de R$ 12,2 bilhões em créditos do banco para o BRB. Diante dessa informação, segundo os relatos, Moraes reconheceu que, se a fraude fosse comprovada, a operação não poderia ser aprovada.

A posição de Galípolo e os desdobramentos

Durante entrevista coletiva em 18 de dezembro, Gabriel Galípolo afirmou estar à disposição do Supremo Tribunal Federal para prestar esclarecimentos, destacando que “documentamos tudo. Cada uma das ações que foram feitas, cada uma das reuniões, cada uma das trocas de mensagens, cada uma das comunicações, tudo isso está devidamente documentado”.

Segundo interlocutores do governo e do mercado, Galípolo também admitiu ter sofrido pressão, mas afirmou que contou com o apoio do presidente Lula para não interromper a apuração.

Reações políticas

O senador Alessandro Vieira anunciou que, após o recesso parlamentar, irá coletar assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o contrato entre o Banco Master e o escritório da família do ministro Moraes, além das supostas pressões sobre o Banco Central.

Na Câmara dos Deputados, o líder do partido Novo, Marcel Van Hattem, anunciou que pretende coletar assinaturas para um novo pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes, citando as revelações sobre os supostos contatos com o Banco Central.

Na sexta-feira (19 de dezembro), o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus determinou que o Banco Central envie esclarecimentos sobre o processo de liquidação do Banco Master.

Silêncio institucional

Até o momento, tanto Alexandre de Moraes quanto Gabriel Galípolo optaram por não comentar publicamente as revelações sobre os supostos contatos relacionados ao Banco Master.

O caso continua gerando enorme repercussão e promete novos desdobramentos nos próximos meses, colocando em xeque questões fundamentais sobre limites da atuação institucional, autonomia do Banco Central, conflitos de interesse e a necessidade de transparência nas relações entre poderes da República.

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