Silvinei Vasques rompeu tornozeleira eletrônica e tentou deixar a América do Sul com identidade falsa; ele está detido no Complexo da Papuda em Brasília
Uma tentativa frustrada de fuga internacional expôs o ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Silvinei Vasques, a uma situação ainda mais grave do que a condenação que já pesava sobre ele. Preso na madrugada de 26 de dezembro no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, em Assunção, Paraguai, ele foi flagrado tentando embarcar para El Salvador utilizando um passaporte paraguaio falso em nome de “Julio Eduardo”.
A Fuga Planejada
O plano de fuga começou a ser executado na noite de 24 de dezembro, quando câmeras de segurança registraram Silvinei deixando sua residência em São José, Santa Catarina, por volta das 19h22, carregando um carro alugado modelo Volkswagen Polo com sacolas, ração e tapetes higiênicos para animais. A tornozeleira eletrônica que monitorava seus movimentos perdeu o sinal de GPS às 3h da madrugada de Natal e, às 13h do mesmo dia, também deixou de funcionar via GPRS.
Quando equipes da Polícia Penal de Santa Catarina chegaram ao apartamento às 20h25 do feriado, seguidas pela Polícia Federal às 23h, o ex-diretor já não estava no local. A vaga da garagem estava vazia e o apartamento trancado.
Documentos Falsos e Alegação de Doença Grave
No momento da prisão, Silvinei portava um documento intitulado “Declaração Pessoal para Autoridades Aeroportuárias”, no qual alegava sofrer de Glioblastoma Multiforme – Grau IV, um tipo agressivo de câncer cerebral, e que não falava nem ouvia “devido a uma condição médica grave”. O documento solicitava que eventual comunicação fosse feita por escrito e mencionava que viajava para San Salvador em voo da Copa Airlines com objetivo de realizar tratamento médico de radiocirurgia.
A irregularidade documental chamou a atenção das autoridades paraguaias, que realizaram a prisão com apoio da adidância da Polícia Federal brasileira no país.
Prisão Preventiva Decretada pelo STF
Horas após a prisão no Paraguai, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes converteu as medidas cautelares em prisão preventiva. Na decisão, o magistrado destacou que os elementos reunidos pela Polícia Federal indicavam não apenas a violação do monitoramento eletrônico, mas a efetiva evasão, reforçada pelo fato de Silvinei ter levado consigo até seu animal de estimação.
Retorno ao Brasil e Prisão na Papuda
Silvinei Vasques chegou a Brasília na tarde de sábado, 27 de dezembro, após ser transferido pela Polícia Federal em uma aeronave King Air que partiu de Foz do Iguaçu, pousando no Aeroporto de Brasília por volta das 13h15. O ex-diretor está custodiado no Complexo Penitenciário da Papuda, especificamente no 19º Batalhão da Polícia Militar, na ala conhecida como Papudinha, onde também está preso o ex-ministro da Justiça Anderson Torres.
A Condenação Original
Em 16 de dezembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Silvinei Vasques a 24 anos e seis meses de prisão por participação na trama golpista, entendendo que ele integrou o “núcleo 2” da trama, responsável por ações operacionais destinadas a sustentar Jair Bolsonaro no poder após a derrota eleitoral.
O ex-diretor teve os direitos políticos suspensos, tornou-se inelegível e foi condenado ao pagamento de indenização coletiva de R$ 30 milhões.
Segundo o STF, Vasques realizou blitzes ilegais nas eleições de 2022 com objetivo de atrapalhar o fluxo de eleitores no Nordeste, região com tendência de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Corte também citou a “inércia criminosa” do então diretor durante os bloqueios de rodovias por caminhoneiros após as eleições.
Histórico e Trajetória
Silvinei Vasques foi nomeado diretor-geral da PRF em abril de 2021 pelo então ministro da Justiça Anderson Torres, exercendo a função até dezembro de 2022. Natural de Ivaiporã, no interior do Paraná, ele ingressou na PRF em 1995 e fez parte da corporação por 27 anos, recebendo aposentadoria voluntária integral em dezembro de 2022.
Foi preso preventivamente pela primeira vez em agosto de 2023 e obteve liberdade em agosto de 2024 por decisão do ministro Alexandre de Moraes, com imposição de medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica. Após a condenação pelo STF, pediu exoneração do cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação de São José, na Grande Florianópolis, função que ocupava desde dezembro de 2024.
Possíveis Desdobramentos
Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que a tentativa de fuga pode agravar significativamente a situação de Silvinei. A defesa do ex-diretor pretende protocolar junto ao STF um embargo de declaração com pedido de diminuição da pena, segundo declaração do advogado Eduardo Simão ao R7 Planalto.
No entanto, juristas consultados afirmam que o descumprimento das medidas cautelares, a violação da tornozeleira eletrônica, o uso de documentos falsos e a tentativa de evasão internacional podem resultar em novos processos penais e no endurecimento das condições de cumprimento da pena já imposta.
A localização da tornozeleira violada não foi divulgada pelas autoridades. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, telefonou para o ministro do Interior do Paraguai, Enrique Riera Escudero, para articular a aceleração do processo que resultou na entrega do fugitivo.
O caso reacende debates sobre a eficácia dos sistemas de monitoramento eletrônico e a necessidade de fiscalização rigorosa de réus condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito.



