Por Carina Acioly – advogada criminalista e professora universitária
Estamos no mês de janeiro e, desde 2014, o Brasil abraça a campanha nacional do Janeiro Branco, um movimento que mobiliza pessoas e instituições para dedicarem mais atenção à saúde mental. É um convite necessário: começar o ano lembrando que a mente também pede escuta, acolhimento, prevenção e cuidado com a mesma seriedade com que cuidamos do corpo.
Mas este Janeiro Branco chega, para muitos, com um peso a mais. No dia 30/12/2025, o poeta e advogado criminalista Dudu Morais foi encontrado sem vida em seu sítio, na Zona Rural de Tabira. Uma notícia triste, que atravessa a gente e nos faz parar. E, sem transformar dor em espetáculo, ela nos coloca diante de uma pergunta inevitável: como andam as dores que não aparecem?
Para muitas pessoas e, sobretudo, para muitos homens, a saúde mental ainda é negligenciada. A cultura do “segura”, do “aguenta firme”, do “isso passa”, do “não demonstra fraqueza” ainda é muito presente. E ela cobra um preço alto.
É preciso dizer com clareza: pedir ajuda não é fraqueza. Não é falta de fé. Não é “drama”. Não é vergonha. Pedir ajuda é cuidado. É maturidade. É compromisso com a própria qualidade de vida e também com aqueles que nos amam e caminham com a gente.
Crises existenciais, depressão e ansiedade não escolhem gênero, nem classe social. Elas não pedem licença, não escolhem profissão, não respeitam “quem parece forte”. Podem atingir qualquer pessoa em qualquer fase da vida. E, por isso, a sociedade precisa ter um olhar mais atento e humano para quem está enfrentando transtornos e dificuldades relacionadas à saúde mental.
Nem sempre os sinais são evidentes. Às vezes, a dor vem disfarçada de irritação, de apatia, de isolamento, de cansaço constante, de mudanças bruscas no comportamento, de um “tá tudo bem” dito apenas para encerrar o assunto. Muitas vezes, quem sofre se sente culpado por sofrer, como se sentir demais fosse um defeito. Não é.
Ninguém precisa (e nem deveria) atravessar esse tipo de batalha sozinho. Recorrer a profissionais habilitados é um passo importante: psicólogos e psiquiatras estão aí para acolher, orientar, tratar e acompanhar, com técnica e responsabilidade. Assim como a gente não hesita em procurar um médico quando o corpo sinaliza que algo não vai bem, também não deveria hesitar quando é a mente que está pedindo socorro. Cuidar da saúde mental é escolher continuar. É escolher respirar com menos peso. É escolher viver com mais presença e dignidade.
Que este Janeiro Branco nos ajude a construir um ambiente mais humano: com menos julgamento e mais escuta; menos cobrança e mais acolhimento; menos frases prontas e mais presença real. Às vezes, o que salva um dia difícil não é um conselho, é alguém que fica, que liga, que pergunta com sinceridade, que oferece companhia e respeito.
Por fim, deixo aqui meu sentimento mais sincero. Sinto muito pela partida precoce de Dudu Morais, que era meu amigo há muitos anos e alguém por quem eu tinha um grande carinho. Que a memória dele seja tratada com respeito, e que Deus conforte o coração de todos que o amavam.



