Durante mais de três anos, a narrativa predominante foi a da governadora Raquel Lyra: Pernambuco teria sido recebido em uma situação financeira delicada, exigindo uma ampla reorganização das contas públicas antes da retomada dos investimentos. Agora, o ex governador Paulo Câmara decidiu responder.
Em entrevista à Folha de Pernambuco, Paulo foi além da defesa de seu legado. Afirmou que quem realmente recebeu um Estado quebrado foi ele, em 2015, após a gestão de João Lyra Neto. Segundo o ex governador, passou praticamente um ano apenas pagando contas, sem condições de investir ou planejar novas ações. Para ele, a realidade enfrentada por Raquel foi completamente diferente.
O argumento de Paulo Câmara se sustenta em um ponto que merece reflexão. Se Pernambuco realmente estivesse financeiramente inviável ao fim de 2022, como explicar a capacidade de mobilizar bilhões de reais em investimentos nos anos seguintes? Para o ex governador, isso demonstra que o Estado foi entregue com equilíbrio fiscal e capacidade de investimento. Na visão dele, o problema não foi a falta de recursos, mas a interrupção de projetos que já estavam estruturados.
Por outro lado, a governadora Raquel Lyra construiu boa parte de seu discurso político justamente sobre a necessidade de reorganizar a máquina pública antes de acelerar as entregas. Para seus aliados, a recuperação financeira promovida pela atual gestão explica o volume de obras e investimentos anunciados ao longo do mandato.
No fim das contas, a discussão vai muito além dos números. Trata se de uma disputa pela narrativa sobre quem merece o crédito pelo momento vivido por Pernambuco. Paulo Câmara diz que deixou a casa arrumada. Raquel Lyra afirma que precisou reconstruí la.
A verdade talvez não esteja apenas em um dos lados. É possível que Pernambuco tenha recebido contas organizadas em alguns aspectos e, ao mesmo tempo, enfrentado desafios administrativos em outros. A política, porém, costuma simplificar debates complexos em versões opostas.
E é justamente aí que fica a pergunta para o eleitor: quem está contando a história mais próxima da realidade? O ex governador, que afirma ter entregue um Estado pronto para continuar avançando, ou a atual governadora, que insiste em dizer que precisou reorganizar Pernambuco antes de colocá lo novamente nos trilhos?
A resposta, como o próprio Paulo Câmara afirmou, não será dada apenas nas entrevistas ou nos discursos. Ela será construída pela memória do eleitor e, principalmente, pelas urnas.



