Na política, gestos também têm prazo de validade?

Quem acompanha os bastidores da política já está acostumado a ouvir uma palavra que costuma definir muitos movimentos silenciosos: gesto. Em Pernambuco, ela aparece frequentemente quando um líder abre mão de um espaço, muda de partido ou assume um posicionamento em favor de um projeto maior. Em paralelo, existe outra expressão popular que traduz bem essa realidade: “engolir o sapo”. No fim das contas, ambas representam o mesmo princípio: ceder hoje esperando reconhecimento amanhã.

Foi exatamente essa expectativa que cercou a decisão do senador Fernando Dueire ao deixar o MDB e ingressar no PSD para reforçar o palanque da governadora Raquel Lyra na disputa pela reeleição. Nos bastidores, muitos interpretaram a mudança como um gesto político relevante, que poderia ser recompensado no momento da definição da chapa majoritária.

Dueire construiu uma trajetória marcada pelo diálogo, pela discrição e pela capacidade de articulação. Sem fazer política baseada em confrontos, conquistou o apoio de mais de uma centena de prefeitos e lideranças municipais, muitos dos quais declaravam que votariam nele caso fosse o escolhido para disputar a reeleição ao Senado na chapa governista.

Entretanto, a composição política seguiu outro caminho. Diante das negociações que envolveram nomes como Miguel Coelho, Túlio Gadelha e, principalmente, Eduardo da Fonte, a pergunta inevitável continua sendo feita por muitos observadores: se Fernando Dueire reunia respaldo político e municipal, por que não foi o escolhido?

Até agora, a principal demonstração pública de reconhecimento ao senador tem sido uma sequência de publicações nas redes sociais agradecendo sua atuação em favor de Pernambuco. É um reconhecimento institucional importante, mas que, para muitos aliados, está longe de representar a retribuição política esperada.

Com uma trajetória iniciada ao lado de Jarbas Vasconcelos, passando por importantes secretarias e chegando ao Senado, Fernando Dueire consolidou uma carreira marcada pela experiência administrativa e pela busca de consensos. Ainda assim, a política ensina, repetidamente, que currículo e apoios nem sempre são suficientes quando as decisões passam pelo peso das alianças e da matemática eleitoral.

No fim, fica uma reflexão: na política, um gesto cria necessariamente um compromisso futuro ou ele pode ser apenas mais uma peça de um tabuleiro onde as circunstâncias sempre falam mais alto? Essa talvez seja uma das perguntas que permanecerão sem resposta, mesmo depois de definidas as chapas para a eleição de 2026.

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