A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no domingo (25), para seu quarto mandato presidencial e seu retorno ao comando do Brasil, deixa uma importante reflexão para a esquerda brasileira: em uma eleição cada vez mais disputada no ambiente digital, não basta ter história, estrutura partidária ou nomes conhecidos. É preciso saber se comunicar.
Após a derrota no primeiro turno para Flávio Bolsonaro, que terminou a primeira etapa da disputa com mais de dois milhões de votos de vantagem, a campanha petista precisou reagir. A mobilização nacional em torno de Lula ganhou força, mas um personagem chamou a atenção nos bastidores da comunicação política: o deputado federal André Janones, reeleito por Minas Gerais.
Muitos esperavam que João Campos, prefeito do Recife e uma das principais lideranças da nova geração do PSB, assumisse protagonismo nessa mobilização, especialmente nas redes sociais. Afinal, sua desenvoltura no ambiente digital já havia lhe rendido o reconhecimento de quem domina a linguagem das plataformas e sabe conversar com públicos diferentes.
Mas foi Janones quem ocupou esse espaço de maneira mais incisiva, transformando a comunicação digital em uma ferramenta de mobilização política.
A aula de Janones à comunicação petista
A atuação de André Janones expôs uma contradição na campanha de Lula. De um lado, uma estrutura experiente, com profissionais de comunicação reconhecidos, como Sidônio Palmeira. Do outro, um deputado que demonstrou conhecer, na prática, os mecanismos de engajamento das redes sociais.
Apesar da experiência da equipe petista, a comunicação de Lula deixou a desejar no primeiro turno. Faltou, em determinados momentos, maior capacidade de reação, velocidade na disputa de narrativas e uma presença digital capaz de dialogar com públicos que não acompanham a política pelos meios tradicionais.
Janones compreendeu que as redes sociais não são apenas vitrines para divulgar discursos, agendas e declarações de candidatos. Elas são espaços de disputa, mobilização e construção de narrativas. É ali que uma mensagem pode ganhar escala, provocar reações e transformar seguidores em agentes de divulgação política.
Segundo os relatos sobre os bastidores da campanha, Janones teria conquistado espaço junto a Janja, esposa do presidente, cinco dias após o primeiro turno. A partir daí, sua participação na mobilização digital passou a ser vista como uma das peças importantes da reação petista.
O episódio deixa uma pergunta: como uma campanha com tantos recursos e profissionais experientes precisou de uma liderança externa à sua estrutura central para reforçar uma estratégia que já deveria estar consolidada?
A direita entendeu primeiro
Desde 2018, a direita brasileira aprendeu a utilizar as redes sociais como instrumentos de organização política. A comunicação deixou de depender exclusivamente dos horários eleitorais, dos grandes veículos de imprensa e das estruturas partidárias.
Mensagens curtas, vídeos, transmissões ao vivo, influenciadores e grupos digitais passaram a integrar uma estratégia permanente de aproximação com o eleitor. Mais do que divulgar candidaturas, essa presença ajudou a formar comunidades políticas, fortalecer lideranças e manter apoiadores mobilizados entre uma eleição e outra.
Durante muito tempo, setores da esquerda pareceram subestimar essa transformação. Apostaram na força de suas lideranças tradicionais, na militância organizada e na comunicação institucional, enquanto adversários ocupavam espaços digitais e aprendiam a falar a linguagem de uma nova geração.
A atuação de Janones mostra que essa realidade pode ser enfrentada. Mas também revela que não basta aparecer nas redes durante uma campanha. É necessário construir presença, identidade e diálogo muito antes de o calendário eleitoral começar.
O santinho já não é suficiente
O santinho continua tendo seu espaço na política brasileira. O contato presencial, as caminhadas, as reuniões e a militância nas ruas permanecem importantes. Entretanto, nenhum desses instrumentos, isoladamente, consegue responder às exigências de uma eleição marcada pela velocidade da informação.
Hoje, o eleitor também forma opiniões enquanto assiste a vídeos, acompanha influenciadores, participa de discussões e recebe conteúdos compartilhados por amigos e familiares.
Ignorar esse ambiente significa abrir mão de uma parcela importante do debate público. A política não acontece apenas nas praças, nos comícios ou nos programas eleitorais. Acontece também na tela de um celular.
Nesse cenário, a comunicação digital precisa deixar de ser tratada como um departamento secundário das campanhas. Ela deve participar da construção política, da formação de novas lideranças e do relacionamento contínuo com a sociedade.
O desafio da esquerda começa agora
A mobilização em torno de Lula levanta outra questão: esse engajamento continuará depois da eleição?
Ainda é cedo para saber se a articulação conseguirá manter a mesma intensidade fora do período eleitoral. Mas a resposta será decisiva para o futuro da esquerda.
A direita não construiu sua presença digital apenas durante as campanhas. Ao longo dos últimos anos, novos nomes ganharam visibilidade, consolidaram públicos e transformaram audiência em capital político. Parte desse processo ajudou a renovar quadros e ampliar a influência de diferentes lideranças.
A esquerda precisa compreender que as redes sociais não servem somente para defender governos ou reagir a adversários. Também podem ser utilizadas para revelar talentos, aproximar representantes da população e formar lideranças com capacidade de dialogar para além das bolhas partidárias.
André Janones demonstrou que a comunicação política exige mais do que grandes estruturas: exige leitura do momento, capacidade de mobilização e compreensão do comportamento do público.
A questão é saber se o PT e seus aliados transformarão essa experiência em uma estratégia permanente ou se voltarão a procurar soluções emergenciais na próxima disputa.
A eleição termina, mas a disputa pela atenção do eleitor continua. E quem compreender isso primeiro poderá chegar à próxima campanha com uma vantagem que dinheiro, tempo de televisão e estruturas tradicionais nem sempre conseguem garantir.
No fim das contas, a principal lição dessa mobilização talvez não seja apenas o protagonismo de André Janones. É o reconhecimento de que a política brasileira mudou, e os partidos que insistirem em ignorar essa mudança correm o risco de perder espaço justamente onde o eleitor passa cada vez mais tempo: nas redes sociais.
Por Pepeu Acioly, jornalista e responsável pelo blog Corujão do Pepeu.



