Campanhas eleitorais viraram “monólogos” nas redes sociais, aponta estudo internacional com dados de 15 países e participação da Unicap

Com informações do pesquisador Bruno Gueiros e do portal UNICAP

Uma ampla pesquisa coordenada por 14 universidades ibero-americanas identificou uma transformação profunda na forma como candidatos presidenciais se comunicam nas redes sociais. O levantamento analisou mais de 32 mil publicações em plataformas como X, TikTok, Instagram e Facebook durante períodos eleitorais em 15 países, revelando que as campanhas digitais abandonaram o debate programático em favor de narrativas personalizadas centradas na figura do candidato.

Os dados, divulgados pelo Portal UNICAP, mostram que 73,69% do conteúdo eleitoral nas redes é de natureza narrativa. Segundo os pesquisadores, isso confirma a consolidação do chamado “imperativo narrativo”: as eleições deixaram de ser disputas entre projetos de país para se tornarem batalhas de histórias pessoais. Nesse contexto, temas essenciais como educação, saúde e segurança somam menos de 10% das publicações analisadas.

“Os dados mostram que as principais lideranças políticas, apesar de trajetória, discursos e estilos diferentes, operam sob uma mesma lógica do imperativo narrativo: a figura do candidato e as histórias personalizadas tomam o lugar do debate programático”, explica Bruno Rafael Gueiros, coordenador da pesquisa no Brasil e doutorando em Ciências da Linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco.

Comunicação unidirecional em plataformas interativas

Outro achado relevante do estudo aponta para uma contradição no uso das redes sociais. Embora as plataformas digitais sejam projetadas para estimular a interação, as campanhas mantêm um padrão de comunicação radial, no qual o candidato emite mensagens e o eleitor apenas recebe. Apenas uma em cada dez postagens gera interação significativa, indicando a permanência de um modelo semelhante ao da televisão tradicional, mesmo em ambientes digitais.

A pesquisa também identificou que os usuários preferem conteúdos de autonarração dos líderes políticos a mensagens que abordem diretamente questões públicas. O storytelling personalizado gera mais engajamento que o debate sobre representação política, fenômeno que pode estar associado tanto à fadiga política quanto ao crescente distanciamento da população em relação aos assuntos de interesse coletivo.

Bolhas algorítmicas e aceleração do ritmo

O estudo cunhou o termo “socialidade restrita” para descrever o fenômeno da repetição de cenários e do filtrado algorítmico, que reduzem o contato com perspectivas divergentes. Esse processo fortalece as chamadas crenças de segunda ordem — aquilo que se imagina que o outro pensa — em detrimento das crenças de primeira ordem, baseadas no que as pessoas efetivamente expressam.

Além disso, a pesquisa constatou uma aceleração do ritmo comunicativo nas campanhas. O uso intensivo de vídeos curtos, reels e fotografias reflete a percepção de que a atenção do público é limitada. Como resultado, as campanhas priorizam reações imediatas em vez da reflexão, transformando a comunicação política em conteúdos sintéticos de consumo rápido. Curiosamente, apesar de recorrentes no debate público, os memes representam apenas 0,48% do material analisado.

Pesquisa colaborativa internacional

O trabalho foi desenvolvido no âmbito de um edital universitário, com divulgação coordenada pelo Laboratorio Digital de Narrativas Políticas da Universidad Camilo José Cela, na Espanha. Desde março de 2024, os pesquisadores desenvolvem diversas linhas de análise e preparam um livro que reunirá os principais resultados do estudo.

“Trabalhar em rede com pesquisadores de diferentes países ajuda a ampliar o nosso olhar sobre o fenômeno. E essa abordagem comparativa permite identificar padrões recorrentes e compreender que muitas dinâmicas observadas no Brasil fazem parte de tendências mais amplas”, destaca Bruno Gueiros, que investiga o discurso político nas redes sociais com foco nas dinâmicas narrativas, nos processos de personalização da comunicação e nos impactos da pós-verdade sobre o debate público.

O pesquisador ressalta que o fenômeno identificado não é exclusivo do Brasil, mas um padrão compartilhado no conjunto dos países ibero-americanos, o que ajuda a entender por que a disputa nas redes se organiza menos em torno de políticas públicas e mais em torno de performances sobre identidade.

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