Entre o discurso e a prática: o que a fala de Raquel Lyra revela sobre autonomia das mulheres?

Há frases que passam despercebidas em uma conversa informal. Há outras que, quando vêm de uma autoridade pública, ganham um peso completamente diferente. A declaração da governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), sobre uma possível laqueadura sem o conhecimento da paciente pertence à segunda categoria.

O vídeo, gravado em 2025 durante a inauguração da ala pediátrica do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, foi divulgado neste domingo (20) pelo portal Metrópoles. Nas imagens, uma mulher relata à governadora o caso de uma gestante que, segundo o relato, já teria sete filhos.

Raquel inicialmente afirma: “A gente tem que fazer laqueadura, visse? Aí, a gente bota na fila da laqueadura”. Na sequência, depois de uma fala que não é possível compreender claramente, acrescenta: “Mas faz sem ela saber! Vai!”.

É importante colocar o episódio dentro dos limites dos fatos conhecidos: não há, até o momento, informação de que a paciente mencionada tenha efetivamente sido submetida a uma laqueadura sem consentimento. O que existe é o registro em vídeo da fala da governadora e, posteriormente, um pedido público de desculpas.

E aqui está o ponto central.

A legislação brasileira não trata a esterilização feminina como uma decisão que possa ser tomada por terceiros em nome da mulher. A Lei nº 9.263/1996 estabelece que a esterilização voluntária depende da manifestação expressa da vontade da própria pessoa, registrada em documento escrito e firmado, depois de receber informações sobre riscos, possíveis efeitos colaterais, dificuldades de reversão e alternativas contraceptivas. A mesma legislação prevê punição para a realização de esterilização cirúrgica em desacordo com essas exigências.

Ou seja: ter sete filhos não retira de uma mulher o direito de decidir sobre o próprio corpo. Ter oito, nove ou nenhum também não.

Planejamento familiar é justamente o contrário da imposição. É informação, acesso à saúde, aconselhamento e liberdade de escolha. A própria legislação define o planejamento familiar como um direito e determina que as políticas públicas garantam às pessoas a possibilidade de decidir livremente sobre a constituição, limitação ou aumento da prole.

É por isso que a frase de Raquel causa desconforto para além da disputa eleitoral.

Não se trata apenas de uma frase infeliz. Trata-se de uma fala que toca em um dos princípios mais importantes da discussão contemporânea sobre os direitos das mulheres: a autonomia sobre o próprio corpo.

A governadora reconheceu o erro. Em vídeo publicado neste domingo, afirmou que a declaração foi equivocada e pediu desculpas.

“Essa fala minha em nada traduz o respeito que eu tenho às mulheres. Por isso, eu peço desculpas. Foi uma fala equivocada, eu não tenho compromisso com o erro”, declarou. Raquel também afirmou que conhece, como mãe e mulher, os desafios relacionados ao planejamento familiar.

É legítimo que uma pessoa reconheça um erro. Aliás, reconhecer um erro é diferente de tentar escondê-lo.

Mas, em política, especialmente durante uma eleição, a sociedade também tem o direito de perguntar: o que uma fala revela sobre a forma como uma autoridade pública enxerga determinada questão?

Essa pergunta não significa transformar uma declaração equivocada em uma sentença definitiva sobre toda a trajetória de uma pessoa. Também não significa concluir, a partir de 13 segundos de vídeo, que Raquel Lyra não respeita as mulheres.

Mas significa reconhecer que discursos e atitudes públicas precisam ser confrontados.

E aqui entra uma questão que certamente será discutida entre as mulheres que acompanham a política pernambucana: o que significa ser uma mulher na política e defender pautas relacionadas às mulheres?

Ser mulher ocupando um cargo de poder, por si só, não transforma automaticamente uma pessoa em feminista. Da mesma forma, uma declaração equivocada não é suficiente, isoladamente, para definir toda a trajetória política de uma mulher.

Feminismo não deveria ser apenas uma identidade eleitoral ou uma palavra utilizada em campanhas. Quando levado a sério, envolve princípios como igualdade, autonomia, dignidade, liberdade de escolha e enfrentamento das estruturas que historicamente limitaram as decisões das mulheres sobre suas próprias vidas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente se Raquel Lyra é ou não feminista.

A pergunta mais relevante é outra: as ações, políticas e discursos de uma governante são coerentes com os direitos e a autonomia das mulheres que ela afirma defender?

Essa resposta não deve ser dada por adversários políticos, tampouco por apoiadores. Deve ser construída a partir do conjunto da trajetória pública, das políticas implementadas, das posições assumidas e da maneira como a governante responde às próprias contradições.

Também é preciso reconhecer que a equipe da governadora contestou a utilização do episódio durante a campanha. Em nota, Raquel classificou a fala como “infeliz”, reafirmou seu respeito às mulheres e afirmou defender o acesso ao planejamento familiar com informação e escolha. A campanha também disse que a divulgação do vídeo seria uma tentativa de desviar o foco do debate eleitoral.

Cabe ao eleitor avaliar essa explicação.

O jornalismo, entretanto, precisa fazer a sua parte: apresentar o vídeo, contextualizar a legislação, registrar o pedido de desculpas e deixar que a sociedade faça as perguntas que precisam ser feitas.

Porque há uma diferença enorme entre decidir com uma mulher e decidir pela mulher.

E, quando estamos falando do corpo, da maternidade e da capacidade de uma mulher escolher se quer ou não ter filhos, essa diferença não é detalhe.

É o centro da questão.

No fim, talvez essa seja a principal reflexão deixada pelo episódio: uma política pública de planejamento familiar só é verdadeiramente democrática quando a mulher está no centro da decisão.

Não importa quem esteja no governo.

Não importa o partido.

Não importa a eleição.

O corpo da mulher não pode ser tratado como espaço de decisão de terceiros.

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