Quando a fé vira palanque: o que a Marcha para Jesus deste ano revela sobre 2026

Por trás dos cânticos, das bandeiras e da multidão de branco que tomou a Avenida Boa Viagem neste sábado, a 28ª Marcha para Jesus no Recife deixou um recado que vai muito além da liturgia. Entre um louvor e outro, circularam santinhos, adesivos e panfletos de candidatos a deputado estadual, federal e ao Senado — quase todos do campo conservador. A cena não é inédita no Brasil, mas incomoda, e deveria incomodar, justamente por normalizar algo que a legislação eleitoral tenta, com dificuldade crescente, manter separado: a fé como experiência coletiva e a fé como instrumento de captação de voto.

Não há mistério na estratégia. Em um estado onde a disputa pelo Palácio do Campo das Princesas e pelas vagas no Congresso promete ser acirrada, o público evangélico é visto — com razão — como um dos blocos eleitorais mais organizados e mobilizáveis do país. Nomes como Clarissa Tércio, Mendonça Filho, Gilson Machado, Anderson Ferreira, Miguel Coelho e outros não estavam ali por acaso. A Marcha para Jesus, com sua capacidade de reunir dezenas de milhares de pessoas em um único evento, tornou-se uma vitrine natural para quem disputa espaço com o eleitorado cristão. Chama atenção, aliás, que os três principais candidatos ao governo do estado — Raquel Lyra, João Campos e Ivan Moraes — tenham preferido não aparecer, um sinal de que mesmo dentro do campo que tenta dialogar com esse público há cálculo sobre os riscos de uma aproximação explícita demais.

O ponto mais delicado, no entanto, não é a distribuição de material de campanha em si — prática comum, ainda que questionável, em grandes aglomerações públicas. É a circulação de panfletos como o intitulado “Manual Cristão de Alerta ao Comunismo”, que mistura teologia e ciência política de forma pouco rigorosa para transformar um adversário ideológico em inimigo espiritual. Ao afirmar que o comunismo seria intrinsecamente “anticristão” e ameaçador à família, o texto simplifica um debate histórico complexo — que inclui desde experiências autoritárias reais até movimentos de teologia da libertação dentro da própria Igreja — e o transforma em uma peça de propaganda política travestida de exortação bíblica.

Esse tipo de material não deveria ser lido como um simples reflexo de convicção religiosa, mas como o que efetivamente é: um artefato de disputa eleitoral que usa a autoridade do sagrado para blindar posições políticas de qualquer contestação. Quando uma pauta partidária é apresentada como mandamento divino, o debate público perde justamente aquilo que o torna democrático — a possibilidade de discordar sem ser acusado de romper com Deus.

É importante, contudo, não jogar fora a criança junto com a água do banho. A Marcha para Jesus nasceu, e em grande parte continua sendo, uma manifestação legítima de fé, comunhão e celebração para milhões de evangélicos que não foram à Boa Viagem para validar candidaturas, mas para louvar. Reduzir o evento inteiro a uma engrenagem eleitoral seria tão injusto quanto ignorar a instrumentalização política que, ano após ano, cresce em suas margens. As duas coisas coexistem, e é essa coexistência — desconfortável, mas real — que merece ser discutida com honestidade.

Fica também a pergunta sobre os limites da fiscalização. Distribuir material de campanha fora do período eleitoral autorizado, em evento de massa com apelo religioso, é uma zona cinzenta que a Justiça Eleitoral pernambucana precisará observar com atenção nos próximos meses, à medida que a corrida de 2026 se intensifica. Não se trata de policiar a fé, mas de proteger o espaço público de manifestações religiosas contra sua conversão silenciosa em comício disfarçado.

No fim das contas, o episódio desta 28ª Marcha para Jesus é menos sobre teologia e mais sobre poder: quem consegue se apropriar dos símbolos que mobilizam multidões, e a que custo. Cabe aos fiéis — e à sociedade pernambucana como um todo — decidir se aceitam que a próxima vez que ouvirem um hino também ouçam, embutido nele, um pedido de voto.

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