Mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, fundador e controlador do Banco Master, revelam que ele se encontrou ao menos duas vezes com uma pessoa identificada como “alexandre moraes” — nome que coincide com o do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. As conversas foram apreendidas durante a Operação Compliance Zero e ocorreram em trocas de mensagens entre Vorcaro e sua então noiva, a modelo Martha Graeff, em abril de 2025. A informação foi publicada inicialmente pelo portal Metrópoles e confirmada por veículos como CNN Brasil, Poder360 e Gazeta do Povo.
Os encontros narrados nas mensagens
O primeiro registro data de 19 de abril de 2025. Às 17h22, Vorcaro enviou a Martha Graeff a mensagem: “To indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa.”Surpresa, ela respondeu questionando se o interlocutor estaria em Campos do Jordão (SP) ou se teria ido especialmente para ver o banqueiro. Vorcaro respondeu que a pessoa estava “passando feriado” na região.
Dez dias depois, em 29 de abril de 2025, Vorcaro citou o nome novamente. Após uma chamada de vídeo com Martha, que durou aproximadamente dois minutos, ela perguntou: “Quem era o primeiro cara?” Ele respondeu: “Alexandre Moraes.” A reação da então noiva foi de espanto: “Morri. Ele gostou da casa amor!?? Tá muito mais astral.” Vorcaro confirmou a visita à sua residência em Brasília, acrescentando que o visitante havia elogiado o imóvel em comparação ao apartamento que frequentava antes. Martha encerrou a troca de mensagens com humor: “Que vergonha, eu tava de pijama.”
Segundo o Poder360, outras mensagens de novembro de 2024 apontam que Hugo Motta, então recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, e o senador Ciro Nogueira (PI) teriam comparecido à casa de Vorcaro para “falarem com Alexandre” — possível nova referência ao mesmo nome. O contexto das reuniões não é detalhado nas mensagens interceptadas.
O contrato milionário com a esposa do ministro
Paralelamente às revelações sobre os encontros, o caso ganhou maior repercussão em razão de um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, do qual é sócia Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O acordo, no valor total de R$ 129 milhões por três anos, previa mensalidades de aproximadamente R$ 3,6 milhões. A contratação foi voltada, segundo documentos, para representar os interesses do banco junto ao Banco Central (BC) e à Receita Federal.
De acordo com o jornal O Antagonista, mensagens internas da equipe de Vorcaro indicavam que os pagamentos ao escritório eram tidos como prioridade absoluta — “não podiam deixar de ser feitos em hipótese alguma”. Até outubro de 2025, mês anterior à intervenção do Banco Central, o contrato havia gerado ao menos R$ 79 milhões ao escritório. Os pagamentos foram suspensos com a decretação da liquidação extrajudicial da instituição.
Em nota, a assessoria do STF informou que o ministro Alexandre de Moraes não irá se manifestar sobre as alegações. O gabinete do magistrado não respondeu a outras solicitações de contato feitas por diferentes veículos de imprensa.
Vorcaro preso pela terceira vez na Operação Compliance Zero
As revelações sobre as mensagens vieram à tona no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou, na manhã de quarta-feira (4/3/2026), a terceira fase da Operação Compliance Zero. Vorcaro foi preso preventivamente por ordem do ministro André Mendonça, do STF, que assumiu a relatoria dos inquéritos relacionados ao caso. Seu cunhado, o empresário e pastor evangélico Fabiano Zettel, também foi detido.
Segundo a PF, esta fase investiga a prática de ameaças, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos por uma organização criminosa. Foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais. O STF também determinou o bloqueio e sequestro de bens no valor de até R$ 22 bilhões, além do afastamento de ex-diretores do Banco Central identificados como alvos da investigação.
É a terceira detenção de Vorcaro desde novembro de 2025, quando ele foi preso pela primeira vez no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para Dubai. Em janeiro de 2026, uma segunda fase da operação resultou na apreensão de 39 celulares, 31 computadores, 30 armas, R$ 645 mil em dinheiro vivo e 23 veículos avaliados em cerca de R$ 16 milhões. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) estima que eventuais ressarcimentos a clientes prejudicados pelo caso Master podem ultrapassar R$ 50 bilhões.
O contexto do caso Master
O Banco Master é investigado por supostas fraudes contábeis bilionárias, incluindo a venda de títulos de crédito falsos. A operação que investiga o caso recebeu o nome “Compliance Zero” em referência à ausência de mecanismos reais de controle interno na instituição. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco em 17 de novembro de 2025. A tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB) havia sido barrada anteriormente diante da constatação de irregularidades nos ativos da instituição.
Especialistas ouvidos pela imprensa avaliam que a pressão sobre Vorcaro para buscar uma delação premiada aumentou significativamente após a nova prisão e o bloqueio de patrimônio da família. Se confirmada, uma colaboração premiada teria potencial de alcançar figuras de alto escalão em Brasília.
A defesa de Vorcaro nega as acusações. Em nota, afirmou que “nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta”, reiterando confiança no devido processo legal.



