Raquel Lyra escolheu Pernambuco e não deve lealdade eleitoral a Lula nem a Bolsonaro

Por Renata Gondim

A vitória da governadora Raquel Lyra (PSD) nas ruas a tornou a única mulher a vencer, no primeiro turno, uma disputa pelo governo estadual no Brasil. Ela construiu sua vitória sustentada pela própria candidatura, pelo trabalho de sua gestão, pela base política que a acompanhou e pelos votos dos pernambucanos. Não precisou transformar a eleição estadual em uma disputa de adesão a projetos presidenciais. Manteve a narrativa de ser “pernambuquista”.

A governadora escolheu falar de Pernambuco. E essa foi uma diferença importante em relação ao caminho percorrido por seu adversário, o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), herdeiro de uma das famílias mais tradicionais e influentes da política pernambucana, com força eleitoral demonstrada no Recife e ampla presença nas redes sociais.

João apostou na associação de sua candidatura ao presidente Lula e ao PT, uma estratégia eleitoral baseada na força do lulismo no Estado. Lula gravou vídeos, veio ao estado e subiu no palanque do então candidato, participando diretamente de uma disputa acirrada contra Raquel.

A governadora, por sua vez, não fez da eleição um confronto entre lideranças nacionais. Não atacou Lula nem buscou transformar Flávio Bolsonaro em aliado eleitoral. Manteve o discurso concentrado no estado e evitou importar para a disputa pernambucana uma polarização nacional que poderia limitar seu espaço de atuação.

O resultado foi uma vitória que fortaleceu sua posição política e lhe deu margem para tomar decisões sem precisar responder, necessariamente, aos interesses de grupos nacionais.

A vitória não cria uma dívida com Lula – Passado o primeiro turno, porém, a discussão sobre o posicionamento da governadora diante da disputa presidencial ganhou força. Raquel passou a ser alvo de expectativas e cobranças para que declare apoio a Lula, como se a relação institucional entre uma governadora e um presidente da República dependesse, obrigatoriamente, de alinhamento eleitoral. Mas é preciso separar as coisas.

Lula tem peso político nacional, mantém uma relação eleitoral consolidada com Pernambuco e esteve ao lado de João Campos na disputa pelo governo estadual. Participou de uma campanha cujo objetivo era derrotar Raquel. Agora, esperar que a governadora apoie sua candidatura presidencial significa exigir que ela coloque em segundo plano o contexto político que acabou de enfrentar.

Não se trata de impedir o diálogo com o presidente, muito menos de negar a importância de uma relação republicana entre os governos estadual e federal. Trata-se de reconhecer que cooperação administrativa e compromisso eleitoral são coisas diferentes.

Raquel pode negociar investimentos, buscar recursos federais e manter interlocução com o Palácio do Planalto sem assumir a obrigação de subir no palanque de Lula. Da mesma forma, não precisa apoiar Flávio Bolsonaro para demonstrar independência em relação ao PT.

O custo político de cada escolha – Em Pernambuco, onde Lula tem uma base eleitoral expressiva, uma declaração de apoio a Flávio Bolsonaro poderia impor à governadora um desgaste desnecessário. Seria uma decisão com potencial para afastar eleitores que não necessariamente rejeitam sua gestão, mas que mantêm identificação com o presidente.

O apoio a Lula, por outro lado, também teria consequências políticas. Além de representar uma aproximação com quem atuou diretamente contra sua reeleição, poderia fortalecer João Campos no cenário nacional, caso o presidente fosse reconduzido ao cargo.

O ex-prefeito do Recife, que lidera um dos principais grupos políticos do estado, poderia ampliar sua influência em um eventual novo governo petista. A presença do PSB na composição nacional, inclusive com a vice-presidência ocupada por Geraldo Alckmin, reforça a possibilidade de o partido manter protagonismo. O tamanho desse espaço, entretanto, dependeria das negociações e da composição efetivamente construída.

Para Raquel, portanto, a neutralidade não precisa ser interpretada como indecisão. Pode ser uma escolha calculada para evitar custos políticos imediatos, preservar sua base e manter abertas as possibilidades de interlocução com qualquer governo eleito.

Pernambuco como ponto de partida e de chegada – A posição da governadora também carrega uma mensagem: sua prioridade é Pernambuco. Quem ocupa o Executivo estadual precisa manter canais de diálogo com Brasília, independentemente de afinidades partidárias. Investimentos, obras, programas sociais e políticas públicas exigem articulação institucional.

O presidente da República não governa apenas para os aliados, assim como uma governadora não pode administrar exclusivamente para quem compartilha de suas posições políticas. Sem se comprometer eleitoralmente com Lula ou Flávio Bolsonaro, Raquel mantém liberdade para negociar com quem vencer a eleição presidencial e cobrar o que considerar necessário para o estado.

Claro que esta postura não elimina os riscos, até porque essa neutralidade pode gerar cobranças dos dois lados e exigir habilidade para administrar relações com lideranças que esperam demonstrações públicas de lealdade. Ainda assim, permite à governadora evitar que sua agenda estadual seja subordinada antecipadamente a um projeto nacional.

Raquel Lyra não precisa transformar sua vitória em instrumento de uma candidatura presidencial. Tampouco deve ser tratada como aliada automática de quem esteve ao seu lado ou como adversária de quem apoiou seu concorrente. A governadora venceu defendendo uma agenda própria. Tem o direito de preservar essa autonomia.

Com isso, Lula e Flávio Bolsonaro disputarão a Presidência, enquanto Raquel Lyra cumpre o seu compromisso: governar Pernambuco. E, seja quem for o próximo presidente, caberá a ela buscar os investimentos e as parcerias necessários para o estado sem confundir diálogo institucional com dívida eleitoral.

Ver posts semelhantes