Deputados governistas vão aos EUA para contestar articulação de Flávio Bolsonaro e pedir fim de tarifas contra o Brasil
Uma comitiva de deputados federais alinhados ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou nos Estados Unidos com o objetivo de se contrapor à articulação política realizada pela família Bolsonaro junto ao governo americano e defender os interesses comerciais do Brasil diante das novas tarifas impostas por Washington.
A viagem ocorre cerca de dez dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington. O encontro antecedeu o anúncio da Casa Branca sobre a aplicação de novas tarifas comerciais sobre produtos brasileiros.
O grupo é formado pelos deputados Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara dos Deputados, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), André Janones (Rede-MG) e Pedro Campos (PSB-PE). Além de reuniões com parlamentares democratas para tratar de temas como relações comerciais e combate ao crime organizado, a agenda possui forte conotação política.
Em vídeo gravado em frente ao Congresso americano, André Janones afirmou que a missão pretende “arrancar a máscara de Flávio Bolsonaro” nos Estados Unidos, relacionando o senador ao recente endurecimento das medidas comerciais adotadas pelo governo americano contra o Brasil.
Os parlamentares afirmam ter levado documentos, reportagens, bases de dados e informações públicas para solicitar apoio de congressistas norte-americanos em investigações sobre uma suposta rede financeira que envolveria o empresário Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, estruturas ligadas à Reag Investimentos e possíveis conexões com esquemas de lavagem de dinheiro atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo os deputados, a investigação também busca apurar uma possível ligação entre recursos financeiros movimentados por essas estruturas e agentes políticos associados à família Bolsonaro. Entre os pontos citados está um pedido de financiamento de R$ 134 milhões feito por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro para a produção de um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, informação divulgada anteriormente pelo Intercept Brasil.
Em documento apresentado pela comitiva, os parlamentares sustentam a hipótese de uma possível “triangulação financeira transnacional”, sugerindo que os Estados Unidos poderiam ter sido utilizados para ocultação ou movimentação de recursos oriundos de crimes investigados no Brasil.
Além das questões relacionadas ao suposto esquema financeiro, os deputados pretendem solicitar apoio para o cancelamento das tarifas comerciais impostas ao Brasil. A deputada Jandira Feghali destacou que o objetivo é ampliar a cooperação entre os dois países, sem interferências políticas ou econômicas.
Outro tema levado à pauta é o sistema de pagamentos Pix, citado por autoridades americanas durante discussões sobre medidas comerciais contra o Brasil. Pedro Uczai afirmou que a comitiva defenderá a manutenção das relações comerciais entre os países, sem tarifas adicionais e sem qualquer ameaça ao sistema de pagamentos brasileiro, que classificou como patrimônio nacional.
A viagem também ocorre em meio ao debate sobre a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Enquanto setores ligados ao bolsonarismo defendem o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho nessa categoria, especialistas em segurança pública e integrantes do governo federal argumentam que a medida poderia abrir espaço para interferências externas em assuntos internos do Brasil e até para a adoção de sanções internacionais.
O episódio amplia a disputa política entre governistas e aliados da família Bolsonaro, que já projetam os movimentos para a sucessão presidencial de 2026, enquanto temas econômicos, comerciais e de segurança pública ganham cada vez mais espaço no debate nacional.



